sexta-feira, 13 de abril de 2012

Mas, que menina

  Me perdi em seus olhos quando ela me contou de seus sonhos e pesadelos. Unicórnios  voadores poderiam fazer qualquer um rir, mas ao focar-me em suas íris esverdeadas fiz-me enxergar em um paraíso encharcado de lágrimas secas. Ela transformou o gosto de  álcool em minha língua em um atípico sabor agridoce, um sabor de menina problema. Ela  me encarava com aqueles olhos verdes de sorvete de menta, os dentes tortos e a língua  áspera, os dedos amarelados de nicotina, a fumaça do cigarro fazendo-a ainda mais  assustadora; eu tinha medo. Medo de me apaixonar e ser deixado, aquele desespero de  errar em um momento em que não devia e então chorar por ela todos os dias.

  Ela me tirou de órbita, me fez flutuar no azul de sua blusa sem decotes, me fez sentir o sabor do beijo que nunca me deu, me fez dormir em um colo que nunca me ofereceu. Era  engraçado, ela continuava me encarando com olhos arregalados, colocando uma mecha , insistente a cair, atrás da orelha, perguntando-me a única pergunta que eu não sabia responder. Poderia inventar um nome, dizer-lhe um daqueles nomes poéticos que vemos apenas em livros mas nunca na vida real, mas eu estava perdido. Acabado, torturado. Sentia o cheiro de urina em um canto e do outro uma brisa trouxe o cheiro de champagne com morango, onde apenas peruas conseguiam ter coragem de pedir. Eu estava completamente perdido, destruído. Ela me encarava, continuava me encarando, e aqueles  lábios cor-de-rosa, o inferior menor que o superior, aquele sorriso torto e errado...  Ela era de um sabor incrível, de um esplendor que duraria para sempre. Ela trazia um  violão nas costas, e as unhas quebradas me diziam que talvez aquela voz de menina azeda  pudesse se tornar bastante doce, os dedos amarelados amarelando as cordas de nylon. Mas não tocou para mim.

  Ela riu e eu me perdi na sua voz. Era errada, desafinada, fora de todos os tons existentes, mas ainda assim me fez flutuar ainda mais naquele cheiro que ela exalava, um cheiro de menina que não sabia o que queria para a janta, que dirá para todo um futuro. O seu sabor era de menina que viraria o que lhe pedissem, que não sabia ser ela mesma mas acaba sendo do mesmo jeito. Ela tinha sabor de álcool e chiclete de uva, uma mistura de algo que não deveria existir. Ela me tirou do chão quando me colocou contra a parede pedindo que eu fugisse do mundo para ela. Ela me encarou, as sobrancelhas mal feitas arqueadas, os olhos verdes tramando algo contra os meus, querendo me arrancar do mundo em que eu nunca realmente vivi. Ela me fez jurar que não contaria a ninguém seus segredos, seus unicórnios voadores que me arrancaram do mundo real, se é que esse realmente existia. Eu estava completamente perdido.

  Ela me fez sumir, virar fantasma. Eu me via refletido naquelas pupilas, me via enfeitiçado por aquelas palavras sem sentido algum, sem motivação alguma para me causar tudo que causava, aquele jeito de gritar para falar com quem estava a meio metro de distância, aquele jeito de implorar por carinho, de arregalar os olhos e derreter os mais pesados corações. Ah, tão linda, tão estranhamente esquisita. Ela me fez prometer, sem dizer ao menos uma palavra, que eu seria dela. E eu me entreguei, me deliciei com aquele olhar, com aquele sabor, o cheiro, com o jeito que me encarava.

  Ela me mandou embora antes que eu pudesse perceber. Tocou os dedos amarelados em minhas bochechas e encarou-me mais uma vez, os olhos brigando com os meus, fazendo-me derreter, explodir, implodir, virar pó. Empurrou-me para a rua, olhou-me com os olhos entristecidos uma última vez e me fez prometer, sem uma palavra, que eu nunca mais voltaria, que aquele bar era só dela. Era ela, era ela, era toda ela. O universo era aquela mulher que me amarrou sem medos ou inseguranças, que me encarou e arrancou de mim pedaços que não pertenciam a ninguém, nem mesmo a mim, e tomou para si. Era ela, minha menina...

  Aqueles olhos esverdeados nunca mais encararam os meus. Mas ah, que menina... eu estava perdido.

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