esta carta.
Fugi depois daquela quarta-feira, pois o meio da semana sempre se tornava maçante para mim. Percebo agora que existiam alguns quês e porquês e comos em mim que mesmo que pudesse eu saber o que eram, nunca resolveriam-se sozinhos. Por isso as fugas em que me metia acabavam sempre em leite com achocolatado, bem fraquinho, apenas uma corzinha dentro da xícara, para me aliviar da quinta-feira que viria e traria a mim novos quês e porquês e, desta vez, alguns quais também. Quinta-feira era o meu dia favorito porque o sol era mais bonito nas quintas, mais quente nas sextas e maior nos sábados, para então nos domingos simplesmente sumir. Eram nos domingos que nos encontrávamos, lembra-se?
Encontrei-me com Verônica na última quarta, e lembrei-me de que ela também não era a maior fã dessa coisa de Beatles songs e Mick Jagger rebolando em palcos, o negócio da menina era Jazz. Me convidou pra ouvir um disco da Norah Jones na casa dela, e em resposta apenas sorri e neguei com a cabeça, você acha que deveria ter ido? Por certo seria legal, Verônica era uma menina com a cabeça firmada, sempre voando um pouco, entretanto. Sempre pedindo que a gente se levantasse quando passasse um casal, era um ritual para que o relacionamento dos dois desse certo. Assustamos um ou dois quando sentadas naquela cafeteria e ela acabou por derramar o chá de menta na própria saia, rindo histericamente e dizendo que isso era coisa que a Amy Winehouse faria. “Quem?” eu perguntei, apenas para fazer a moça rir ainda mais.
Na última sexta, saí. Saí para respirar um pouco, sacudir um pouco o pó das roupas boas, sabe como é. Também não tenho dormido, não que isso importe alguma coisa. Acho que sempre tive tudo isso dentro de mim, insônia, só não praticava. Assisti aquele documentário que você me recomendou, porém não vi graça alguma. Os efeitos eram ruins e a fita parou na metade, riscando e fazendo uns sons estranhos. Não gosto de coisa velha, essa coisa de querer me enfiar goela abaixo os discos da Norah e fitas cassetes, essa coisa é tudo muito século 20. Ah, falando nisso, encontrei Guinevere semana passada. Disse que resolveu mudar o nome pois agora está vivendo em Paris. A pobre coitada acha que mudou o nome para francês, mas o original parecia muito mais do que o de agora, mas que é que ela sabe? Que é que eu sei mesmo? Ah, sim, eu sei cozinhar. Tive que jogar fora aquele pedaço de torta que te guardei, fiquei esperando o quanto pude, mas as tortas tem prazo de validade e aquele ali já estava passado. Passada fiquei eu ao receber tuas mensagens, cartas, cartões postais.
Fazia séculos que eu não abria a caixa de correio. Que susto!
Mas ah, meu moço, já é novamente quarta-feira. Passou-se toda a semana e chegamos novamente na metade, uma metade mal calculada, metade estranha, fora do normal, uma metade assimétrica, a-romântica, a-tudo. Semi certa, porém. Mentiras mal-contadas e verdades pela metade também. Mas você me escreveu, moço, me escreveu. Carrego essa carta por aí dentro do bolso do casaco mais caro, pois penso que se me roubarem pelo casaco, poderão também roubar um pedacinho do coração que deixei por ali, ainda batendo, em carne-viva. Fazer algum bem para a humanidade, sabe como é. Mas é quarta-feira, e pelos céus, todos sabem que amo as quintas.
Quem sabe o amanhã chegue e eu lhe apareça na porta, com um pedacinho da torta que você assim tanto queria, um sorriso no rosto e uma timidez no olhar, o pedido de ‘me aceita’ quem sabe literalmente escrito na testa. O quem sabe, meu moço, demora para fazer sentido, quem sabe o quem sabe o faça algum dia, mas a generalidade dessa carta deverá ficar para outro dia. O forno novo que comprei acabou de fazer o seu bing! para avisar-me de que a primeira camada do pão-de-ló está pronta. Não reclame, todos sabem o quanto uma torta demora para ser feita. E é quarta-feira. Hoje é dia de fugir.
Esquece de mim não. Lembre-se do 'quem sabe'.
Sempre sua,
Hannah Schröer
fiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu
ResponderExcluirsempre me surpreendo com o que tu escreve