Peço perdão pela desconsideração de lhe mandar essa carta/bilhete em um papel de guardanapo. Ainda observo essas quatro marcas das dobras, já que abri o papel para que coubessem mais palavras, pois bem sabes que quando começo a falar, nunca mais páro. Ou talvez nunca seja uma palavra fortíssima para exemplificar apenas uma figura de linguagem, um modo de falar, um jeitinho único de tentar cuspir pra fora que falo; e falo muito. Quando tenho em mãos, então, um papel – mesmo sendo ele um pedaço de guardanapo – e uma caneta emprestada de um garçom, vou longe.
Lestes bem, encontro-me em um bar e neste bar vejo as mais diversas pessoas. Ali no canto encontra-se um rapaz de óculos e um nariz um tanto quanto grande demais. Ele fica olhando para a porção de batatas fritas intocável à sua frente, como se o seu olhar pudesse fazer essa porção diminuir sozinha. Ousaria dizer que tenta comê-la por osmose, mas não entendo de biologia e não arriscarei falar bobagens, mais do que já é uma bobagem escrever-lhe em um pedaço de guardanapo, sentada em um bar, tomando café. Tu sabes que em minha boca jamais entra uma gota sequer de álcool, por mais que um pouquinho de leveza me caberia bem agora. Sinto-me pesada e esse peso me tira o fôlego. Ou talvez seja o calor.
Ali no canto contrário ao do rapaz de óculos senta uma perua – se é que não seria falta de respeito chamar-lhe assim – que errou a quantidade de maquiagem e sorri para o moço sentado ao meu lado. Acho que está tão embriagada que às vezes confunde o olhar e o direciona à mim. À mim, veja só se pode uma coisa dessas! Eu, sentada aqui sem pensar em mais nada além do quanto este café está em falta no quesito açúcar e eu deveria estar em casa. Mas sempre quis dizer que já entrei em um bar e cá estou. Agora posso lhe dizer: estou em um bar. Escrevendo-lhe este bilhete que mais parece uma carta despedida de guerra, tamanho a extensão de minhas palavras. Como já disse e repito sempre: falo demais.
O garçom me pergunta se gostaria de algo mais forte. Acredito que minhas olheiras devam entregar-me e contar todos meus segredos. Este moço vestido elegantemente – o que acho uma idiotice, pois todos aqui, exceto eu, estão tão bêbados que poderiam confundí-lo com um pinguim – olha-me os olhos e sei que deve saber que deito em minha cama quando são doze horas e que as cortinas estão sempre bem fechadas, pois com luz não consigo dormir. Tolice! Não durmo de modo algum. Ele sabe que deveria diminuir a quantidade de cafeína, mas que diferença faria se bebesse então algo mais forte, como me aconselha?
Devo admitir que não era minha intenção passar para a segunda página desse guardanapo, mas é bom. Agora vejo alguns furos que acabei fazendo com a pressão da caneta no fino papel e analiso o comprimento e a largura e o tamanho de minha letra e fico a calcular quantas letras e quantas frases e quantas linhas poderei ainda escrever incomodando-te a madrugada – pois não se engane, eu lhe conheço. Sei muito bem que o quer que seja que lês, é sempre de madrugada. Incrível! – mas nunca fui muito boa com cálculos. Ah, o nunca é muito tempo. Assim como o sempre.
Sabes aquele sempre que prometemos? O “para sempre” que insistimos em manter em juras e promessas – mesmo sabendo que não as cumpriríamos, pois o “para sempre” não pode ser comandado… assim como muita coisa – não cabe neste guardanapo furado e rasgado e pequeno demais. Basta dizer que apesar de meus cálculos parecerem ter dado certo, meu coração quis falar demais. Assim como eu, o danado sabe como falar! E falando, falando, falando, o pobre guardanapo chega ao fim. Perdôe-me pelos rasgos e furos e manchas de tinta. Prometo que esta gotinha que manchou a palavra “café” foi isto mesmo: café. E não me julgue, peço, por favor. O garçom-pinguim deu-me uma xícara de descafeinado. Como disse anteriormente, o moço sabe bem que não durmo. Quis ajudar-me, o rapaz. Mal sabe ele que não dormirei de modo algum, tendo cafeína em meu sistema, ou não.
O “para sempre” não deixa-me dormir. Ops. Acabou o papel. Sinto muito. Desculpe a letra pequenina, mas não coube. E eu não poderia terminar esta carta boba sem o mais importante: eu o amo.
Com amor,
Hannah S.
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