quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Daltonismo psicológico e a mudança

  Eu gostaria de saber, Maurício, mas sem pretensão alguma; sem necessidade alguma, apenas sento aqui do lado da janela e fico tentando imaginar qual o motivo, qual o grande motivo... me diga, Maurício, por que raios as cores? E as flores? E o céu, e os planetas, e o mar e os corvos empalhados?

  Nós poderíamos ter tanto, Maurício. Poderíamos ter o mundo e poderíamos não ter nada dele, tenho plena certeza de que se tivéssemos apenas um ao outro, poderíamos resistir a todo esse vendaval que acontece lá fora – e dentro de nós também – e poderíamos ter todo o universo. Sei que buscarias uma estrela no mais profundo infinito se eu assim te pedisse, mas não o quero, Maurício. Nós poderíamos ter tudo; eu... eu poderia ter tudo. Mas quero as cores. Eu quero as cores de volta, Maurício. Será que você também não as quer?

  Nós poderíamos ter tanto...

  
  Maurício, não sinta-se triste por não ouvir mais o meu riso fundindo-se às músicas que tocam em nossa vitrola caindo aos pedaços. Não sinta-se triste por eu ter deixado as flores amarelas morrerem e ter matado as flores vermelhas de tanto dar-lhes água. Não sinta-se triste por eu ter tingido meus cabelos e por ter errado a receita do seu doce preferido, tu sempre soubestes que sou um desastre na cozinha. Não chore, Maurício, por estar vendo as coisas mudarem. Na verdade, Maurício, nós estamos tão distantes um do outro e essa distância é tão tocável... essa nossa frieza é tão tocável que sinto que por isso, sim, deveríamos chorar. E não se entristeça por ver em meus olhos uma dor incompreensível se formar quando vejo a chuva molhando nosso quintal. Eu apenas gosto do sol.


  E tenho medo da morte.


  Mas sabe, Maurício, por ti eu morreria. Eu enfrentaria o medo de trovões e dançaria contigo debaixo de uma tempestade, eu correria entre milhares de pessoas, eu alimentaria pássaros e dormiria de luzes apagadas. Mas Maurício, será que em minha morte, segurarias minha mão? Será que apesar de querermos tanto, não poderíamos ter o pouco que somos e ainda assim poder enxergar novamente as cores? Quero ver azul, Maurício, e quero que tu possas ver novamente meus olhos vermelhos, e quero que possamos nos curar de nós mesmos. Mas, Maurício, nessa cura, ainda quero continuar doente em uma coisa...


  Quero continuar loucamente apaixonada por ti. E se isso não for doença... não sei bem o que é.


  Eu o amo, Maurício. E tu sabes o quanto eu amo as cores.


Hannah S.

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