Sinto muito, Maurício. Sinto pelas lágrimas incolores que te fiz derramar, sinto pelo sangue que não faltou quando tu querias me matar e eu continuei viva. Sinto muito, Maurício, por continuar acreditando que o que nos prende é o amor. Maurício, que continua fingindo enxergar negro quando vê vermelho, meus olhos estão transbordando lágrimas e eu sinto muito. Sinto muito por sentir tanta dor.
Eu segui em frente e não consigo entender porquê. Eu mantive meu coração batendo mesmo quando tudo que existia em mim me impelia a desistir. Eu não sei porque, e acho que nunca entenderei. Maurício, eu fingi enxergar verde nos teus olhos azuis, ou talvez tenha sido sem querer e minha cabeça tenha me enganado, mas a verdade é que tu estás em cada milímetro de mim. Eu te sinto na cicatriz do meu umbigo e te sinto por debaixo de minhas unhas. Te sinto dentro de mim em nossas noites de amor, e te sinto por horas depois que acabamos. Te sinto como um monstro se escondendo no armário, só que eu sei, Maurício, que tu não sairás de lá para me assustar. Eu já estou assustada o suficiente, amor. E dói tanto… me arranca pedaços.
Só que esses pedaços, Maurício, você não juntará.
Nós amamos as cores. E nós amamos as cores com tanta força que não sobra força nenhuma para amarmos um ao outro. Embora eu tenha jurado a mim mesma que é apenas teu nome, e que é apenas uma cicatriz e que são apenas cores, continua significando demais. Continua tendo significado profundo demais. Tu és todo verde, Maurício, e eu sou toda negra. Só que esse preto que domina nossas paredes e nosso piso e os corvos empalhados que tu insistes em arranjar para guardar dentro de casa podem acabar. Poderíamos pintar novamente as paredes, colocar um piso novo e dar um fim nesses corvos estúpidos. Mas não muda o fato de que meu coração é negro. Sinto muito, Maurício. Sinto muito por não ter morrido.
Minha morte seria um alívio, não seria? Não seria um bom recomeço pra ti? Será que não somos nós dois a causa de nosso daltonismo? Me mostra a cara, Maurício, e me responda. Somos a causa, ou a cura?
Eu o amo, Maurício. E eu sinto muito. Sinto muito pelas cordas que tenho comprado e os remédios do hospital que ainda guardo na primeira gaveta da cômoda. Sinto muito pelas tesouras afiadas que tenho levado junto comigo para o banho e por sempre encher a banheira até a borda. Eu apenas queria que tu visses que estou tentando me comunicar.
O problema é, Maurício, que você está olhando para o outro lado.
Eu queria voar. Queria abrir minhas asas de corvo e alçar vôo, fugir de ti e finalmente te deixar livre. O problema é que é tu quem estás fugindo de mim. Teus olhares esverdeados continuam se direcionando apenas às estrelas, mas devo te lembrar de que quem vôa aqui, sou eu. Mas não, Maurício. O céu não é meu lugar, assim como o mar não é o teu. Meu lugar é em ti e o teu é em mim. Pelo menos era assim… como dói olhar em teus olhos e ver que já não me queres da mesma maneira. Vá nadar, Maurício, vá. Vá se afogar, vá se perder. Mas não me corte as asas quando eu resolver voar também.
Vamos fugir? Eu fujo de ti… e tu de mim. Mas pode ser juntos?
Eu realmente sinto muito.
Hannah S.
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