segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Daltonismo psicológico e o final feliz

  Nós não temos final feliz, Maurício. Eu não sei bem porquê, mas ele simplesmente não existe. Não sei bem o que seria um final feliz, um final em que ambos saímos sorrindo? Isso não existe. Se acaba, acaba mal, acaba com retalhos de coração jogados ao chão e esses retalhos, Maurício, ninguém junta. Se final feliz é final, onde está a felicidade, Maurício? Será que somos nós realmente… felizes?
  
  Maurício, nossa cama ainda está manchada de sangue e eu sei que tu não a limpará. Na verdade eu sei que nada que possa ser vermelho/negro será tocado por ti, visto que evita o quanto pode teu daltonismo. Maurício, meu amor, continua escondendo a cara de mim, colocando o capuz por sobre o rosto achando que assim não posso ver teus olhos azuis/verdes, mas estes olhos, Maurício, os mesmos que me encaravam no hospital após as facadas, eu nunca esquecerei. Algumas visões não são facilmente apagadas, assim como algumas memórias.

  Cicatrizes não doem, Maurício. Mas as memórias, sim.

  Meu Maurício, meu Mau…Maurício, que fazes acordado a essa hora? Quem deveria ter insônia aqui nessa casa sou eu e tu és aquele que ronca a noite inteira. Lá fora a lua já desapareceu no horizonte e a luz do sol ilumina algumas nuvens, deixando o céu com essa coloração rosa e laranja claro. As cores me interessam sempre, tu sempre soubeste, Maurício, e talvez tenha sido por isso que continuas enchendo nossa casa com flores de todas as cores possíveis, exceto o vermelho. E não existem flores verdes, tampouco azuis. A não ser que sejamos Novalis e eu não acho que o somos.

  Ou talvez sejamos Mona Lisa, a estúpida mulher que não sorri, e talvez sejamos realmente pobre Novalis em busca de uma flor de cor especial, azul. A cor dos teus olhos, meu amor, a exata cor dos teus olhos, que eu não consigo ver. Não é triste, Maurício, nosso final feliz? 

    – Bom dia. – você me diz, como se realmente acreditasse que existe algo de bom em acordar antes que os pássaros.
    –   
Estou cansada, Maurício.
    –   
De quê?
    –   
De não enxergar as cores.

  Você suspira pesadamente e meu coração também pesa. O cheiro dos jasmins perto da janela me inebriam e eu sinto que estou morrendo sufocada. Talvez seja a hipocondria que sempre me faz achar que há algo errado, mas me responda, Maurício, como podes ainda achar que esse cheiro me agrada? Teus pés vem se aproximando e eu subo o olhar aos teus olhos verdes… espera. Espera. Eram verdes? Ou azuis?

  Estou me esquecendo das cores, Maurício. Já ouviste algo mais infeliz em toda a sua vida?

    – Você sabia que seria complicado. – tua voz ecoa em nossa sala enquanto eu continuo sentada à tua frente e você parece cada vez mais alto.
    –  
O quê seria complicado?
    –  
Eu e você.

  Não, Maurício, eu nunca soube. Eu sempre soube, na verdade, que teus olhos tinham algo de errado, como se saltassem fora das órbitas toda a vez que eu decidia sorrir. Que mal tem, Maurício, mostrar um pouco os dentes e por que ainda não te acostumaste com a ideia de que as pessoas sorriem quando estão felizes? Deveria eu chorar por ter você ao meu lado? Ou o que esperas de mim é um sorriso à la Mona Lisa? Odeio esse quadro, meu amor, e não me agrada essa tristeza no olhar que algumas pessoas carregam. Odeio principalmente o azul aguado que se instalou nos teus olhos por soluçares a noite toda enquanto eu finjo dormir. Tuas lágrimas te limpam, Maurício? Te lavam, te transformam, são lágrimas boas? São lágrimas de amor? Se forem, Maurício, talvez eu não me importe em deitar minha cabeça em teu ombro e sorrir, visto que eu odeio quando choras. Posso, Maurício, posso sorrir?

    – Nós não somos complicados. Eu e você somos complicados e, juntos, viramos uma catástrofe. – eu digo e você sorri tristemente. Assim como Mona.
    –  
O quão catastróficos somos? – você pergunta e eu levanto drasticamente e ergo as mãos para o alto.
    –  
Como bomba de Hiroshima! – grito e minhas mãos fazem gestos exemplificando a explosão nuclear. Teus olhos se enchem de lágrimas e teu sorriso triste ressurge.

  Você se aproxima e teus braços me envolvem, uma mão sobe aos meus cabelos e teus lábios encostam nos meus. Maurício, não deveria se arriscar tanto assim.

    –  Somos como a rosa de Hiroshima, e não a bomba. – você diz, após livrar meus lábios da pressão dos teus. Eu bem sei que é a mesma coisa, Maurício. Mas nós sempre conseguimos um jeito de mascarar a verdade.

  Somos rosa, Maurício. Uma catastrófica rosa de Hiroshima. Ao menos dessa vez, devo admitir que tu estás completamente correto.

Hannah S.

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