Obrigada, Maurício.
Obrigada por ainda não ter desistido de mim, por maiores que fossem as dores que te causei. Sei que é insuportável olhar para meus olhos e não enxergar a cor certa e querer subir ao telhado olhar as estrelas e não poder por ter fobia de altura e sei que tua voz se perde no meio dessa multidão de pedras a que chamamos ‘pessoas’. Eu ainda ouço, Maurício, ainda consigo ouví-lo gritar meu nome quando se sente perdido. Sei que estás perdido e sei que se perdeu de mim, mas obrigada, amor, por sempre tentar voltar. Eu te vejo, Maurício, arranhando as paredes e fazendo um som agoniante com as unhas e sinto teus braços se arrepiarem com a gastura de ter pequenos pedacinhos de tinta vermelha fincados na pele. Eu vejo lágrimas se formarem na base de teus olhos e as vejo escorrendo em tua face e vejo teus cílios molhados grudarem na pele e vejo tua boca entreaberta procurar pela minha enquanto eu desvio.
Eu enxergo, Maurício. E o que vejo não é bonito. Eu vejo o azul tornando-se verde e misturando-se sem piedade ao tempo em que eu queria apenas enxergar normalmente. Eu posso até enxergar, Maurício, posso até ver e ter uma noção bem clara das coisas, mas, Maurício, teus olhos me desmoronam. São eles os culpados, amor, eu sei. São os culpados por essa paixão inquietante que tenho por ti e por todas as cores existentes no mundo. Eu sinto saudades de poder enxergar azul e sinto saudades de poder dormir em paz sem ter tuas mãos acariciando minha cicatriz.
Maurício, me deixe respirar.
Mas, ainda assim… obrigada. Obrigada por me tirar o fôlego e por me forçar a procurar tua boca no meio da noite; obrigada, Maurício, por me ressuscitar de tantas vezes que já morri. Obrigada, amor, por me trazer de volta à vida, mesmo que não merecesse. Maurício, lembra-se da Rosa de Hiroshima?
Tenho pensado muito nela. E em que cor teria.
Qual a cor da dor, Maurício? Qual a cor da destruição? Qual a cor da saudade? Da perda? Do medo? Qual a cor da morte?
Maurício, obrigada. Obrigada por segurar minha mão quando penso em me atirar de todos os precipícios a que já fomos e obrigada por me provar que pularia atrás de mim se eu realmente tivesse coragem. Maurício, mesmo que teus olhos estejam normalmente opacos e não pareçam realmente me enxergar, ainda assim sou grata por poderem estar tão perto de mim a cada vez que me viro. Obrigada, Maurício… muito, muito obrigada por nunca desistir de mim. Mesmo que eu mesma já tenha desistido há muito tempo.
Quero voltar a pintar, Maurício. Mas não vejo porquê eu pintaria sem saber se o céu que estou retratando é verde ou azul. Se morássemos em um mundo onde o céu é verde, Maurício, que cor seria a chuva? Não seria explêndido se a chuva não fosse assim, tão incolor? E se chovesse vermelho, amor? E se chovesse roxo? Talvez eu tenha capacidade para retratar um mundo onde o céu é verde em minhas telas. Mas a chance de me considerarem louca é grande demais.
Obrigada por ser tão louco quanto eu.
Sabe aquela cor, Maurício? A cor da dor, da destruição, da saudade, da perda, do medo… a cor da morte? Maurício… é verde.
E verde é a cor do amor.
Hannah S.
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