Maurício, já lhe disse milhares de vezes que não gosto de quando cobre o rosto. De quando coloca o capuz por sobre a cabeça para que não se possa ver teus olhos. O cabelo ruivo sempre me encantou, por que insiste em me fazer esticar os braços para conseguir vê-los? Me vejo repentinamente com o braço cheio de fios se esticando até a sua cadeira do meu lado e você acorda no susto de sentir minha mão fria no teu rosto. Os olhos claros brilham na sombra do capuz e tua boca de repente se abre em um sorriso desesperado e me abraça forte. Minha cabeça gira mais rápido do que qualquer outra coisa e sinto que desmaiaria/vomitaria/morreria se continuasse sentindo teu peso por sobre meu estômago mais um tempo.
– Mau... Maurício... – eu começo e você subitamente levanta, fazendo o capuz cair no impulso. O mundo pára de girar por um tempo apenas para voltar quando sinto teu perfume almiscarado perto de mim. E suspiro pesadamente ao perceber que ainda continuo com a estúpida mania de parar na primeira sílaba do teu nome e começo a tentar me convencer que é, afinal, apenas um nome. Apenas uma sílaba. Que dia é hoje, Maurício?
Algo estava errado. Nosso quarto possui paredes vermelhas, onde está o guarda-roupa? Por que estou em uma cama de solteiro? Teus olhos me sondam e teu peito arfa, subindo e descendo com uma velocidade impressionante. As mãos sobem aos cabelos compridos demais e você se agacha no chão, chorando. Aos poucos as lembranças vão me assombrando e meus olhos se fecham. Achei que fosse desmaiar novamente, cair pela segunda vez. As quedas, Maurício, acabam com tudo, não é a verdade? Como se o fato de os joelhos tocarem o chão e a cabeça bater com força na queda fizesse com que todo o resto tornasse mais complicado. Levantar, meu bem, deve ser tão complicado. Levantar depois de cair e se machucar de verdade... ah, isso deve ser difícil demais.
Ouço teu pranto inundando o quarto do hospital e a dor começa a me invadir novamente. Maurício, páre de mascarar. Já percebeu como o vermelho te é mais confortável? Se as paredes agora são verdes e tu as enxerga assim, porque deveria chorar por sentir falta do negro? Olhe em meus olhos, Maurício, olhe pra mim. Levanta a cabeça, levanta do chão. Não é porque caiu que tem que ficar sempre ali. Começo a segurar o fôlego e meu umbigo começa a reclamar de dor. Teus gritos me doem ainda mais.
– Mau... Maurício, cale a boca. – eu falo com o resquício de força que ainda me sobra e de repente se esvazia. A morte não veio me buscar? Foi isso? Deve ter se assustado com nosso quarto negro, nossa cama de madeira escura, o guarda-roupa vazio, o cheiro do teu xampu de chocolate. Deve ter se assustado conosco.
Teu choro pára. Você levanta devagarinho e se aproxima de mim, coloca tua mão sempre quente entre meus seios, bem no meio de mim. Não perto o suficiente do meu fraco coração nem o longe necessário para fazer com que ele se acalme. Na verdade, Maurício, eu nem preciso dessa morfina que me estão colocando nas veias. Você é a minha morfina. Mesmo quando as facadas me tiram a vida devagar e quando tuas máscaras vão caindo e se renovando com as tuas diferentes expressões faciais, ainda assim você é a minha cura. Mesmo que em um momento teu daltonismo tenha te levado a uma loucura complicada demais para mim e meus olhos castanhos-avermelhados te fuzilavam com a dor que sentia ao sentir o sangue vazando de mim, ainda assim, Maurício, ainda assim.
Minha mão gelada sobe ao meu peito e segura tua mão com toda a força que tinha – admito, não é muita, sempre fui fraca, mas quando se segura a mão de seu grande amor... ah, Maurício, se você soubesse, se apenas soubesse. A força que me sobe às veias quando sua mão me esquenta por inteira. Ainda que os pontos lategem e quase arrebentem com a dor pulsante que se instalou em mim no momento em que te ouvi chorando, ainda assim quero você por perto. Quero você para pintarmos nossas paredes de uma cor mais clara para tentar trazer mais cor à tua vida. Se vermelho pra ti se torna negro, então vamos adotar o azul. Azul, blue, blau, bleue, blu. E agora fico me perguntando por que apenas em português azul começa com a? Ou será que só estou vendo as coisas por um lado? Com que olhos enxergo, Maurício, se meu olhar é vermelho-negro? Se teus olhos azuis para mim se tornam verdes?
Sinto que vou arrebentar, Maurício. Sinto que minhas extremidades estão para explodir, como se o espinho que me arrancaram do dedo me tornasse inteira. Como se fosse ele que me completasse, o espinho da rosa vermelha-negra para alegrar nossa casa. Mas que alegria se tem, Maurício, quando se pôde ver a morte, se pôde sentir a paz de ir embora, se pôde, por um pequeno momento, não sentir dor? Por que me trouxeram de volta, meu amor? Lá parecia tão mais fácil...
– Eu te amo. – ouço tua voz nos meus ouvidos e uma lágrima tua me arrepia ao cair em meu pescoço.
– E eu amo as cores.
Desmaio. E eu sabia que acordaria mais tarde. Foi estranho como doeu, Maurício. Muito, muito estranho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário